1
Tempo tempo tempo
O que fazer com essa relatividade?
O tempo que pode pesar mais que a pedra sobre os ombros de Sísifo,
Que um grito num calabouço,
que uma saudade bruta.
O que fazer com o tempo?
pergunto quase impassivel às rugas que chegam sem convite,
diante de imagens pouco nítidas dos pequenos quadros desarmonicamente enfileirados na parede de tantos anos
Tempo tempo tempo, roga o poeta mesmo sabendo que não existe acordo possível.
O tempo é inexorável.
Que faço eu desse tempo?
Desse breve tempo que me resta!
2.
Eu mal nascido nos trópicos onde os dias são tão caros. Que tempo ainda me cabe?
O fim marcado pela bala? pela fome? Ou o tempo bovino marcado pela eterna esperança? O tempo da esperança canonizada.
Tempo tempo tempo
O que faço eu nesse tempo?
Esse tempo de me embriagar de uma alegria coloridadamente tóxica
do anúncio onde alguma moça de beleza estrangeira de algum lugar estrangeiro de sorriso estrangeiro de uma felicidade tão estrangeira para mim quanto elas mesmas
(a moça e a felicidade)
tempo estranho de bala e sexo amasiados na mesma cama
3
Tempo tempo tempo
O que faço eu com esse tempo agora?Esse tempo despido do tempo diante de ti, companheira. nesse momento em que não cabe um só movimento, que mal comporta o beijo de tão intenso?
Só eu e seu corpo, só seu corpo e minha desalma
O tempo que zomba do relógio
Que manda o patrão e sua mais-valia pro caralho, o tempo descapitalizado nesse segundo-momento o que podemos enfim nós, senão gozar de todo tempo que inexiste agora?!
III
no meu tempo era diferente
sentencia a boca envelhecida na fila do banco no meu tempo não era assim nem assado,contraprofetisa a boca enlutada debaixo de um véu que mal esconde o hálito fúnebre
pois meu tempo não permite saudosismos,
Olho pra trás e prossigo, curupira faminto de caça e fumo, prossigo
IV
as horas são cuidadosamente construídas numa engenhoca maldita.Feitas e refeitas e cada vez vão ficando sutilmente mais longas e pesadas, mais apertadas. Sufocantes.
Que fábricante maldito inventou as horas?
Acabaram-se as horas do beijo durante o sexo
eles hoje vêm prontos e sem esforço pra sua satisfação
O tempo do encontro marcado ao nascer do sol,
ou depois da chuva numa tarde maranhense,
o tempo de imponderabilidades sorridentes
como reencontrar um amigo na multidão inquieta de minha cidade ou de se ver amigo dos passarinhos numa praça escondida das aulas de matemática
O tempo de mergulhar no vazio momentâneo duma sombra de amendoeira fresca da infância à beira da Guanabara
e ter como companhia um breve e profundo sorriso em silêncio,
aquele tempo de não dizer nada, de não fazer nada, de quase não respirar: tempo abundante do nadar,
hoje condenado à vergonha
Mas o tempo secou. Secou e nos sufoca. Secou mas incomoda como a saudade inútil.
Secou e sopesa como o espírito de um pássaro extinto há muitas eras
V
Mal vejo a hora de te rever
eu que de tão sozinho e saudoso
brinco de inventar palavras que sirvam de alinhavar esse vão do peito-canyon
palavras gagas de sentido e música:
(como são de praxe as palavras sozinhas)
eu, sozinhidão, eu sadadetude.
Eu que tento em vão algum sentido de poesia capaz de me dessozinhizar