Este pretende ser um espaço de divulgação de coisas que venho produzindo ao longo dos anos. Sem pressa. Afinal, "de preguiça em preguiça, também se enche boa linguiça".


domingo, 10 de novembro de 2024

tempo em tempos

1

Tempo tempo tempo

O que fazer com essa relatividade?

O tempo que pode pesar mais que  a pedra sobre os ombros de Sísifo,

Que um grito num calabouço,

 que uma saudade bruta.

O que fazer com o tempo?

pergunto quase  impassivel às rugas que chegam sem convite,

 diante de imagens pouco nítidas dos pequenos quadros desarmonicamente  enfileirados na parede de tantos anos

Tempo tempo tempo, roga o poeta mesmo sabendo que não existe acordo possível.

O tempo é inexorável. 

Que faço eu desse tempo? 

Desse breve tempo que me resta!

2.

Eu mal nascido nos trópicos onde os dias são tão caros. Que tempo ainda me cabe?

O fim marcado pela bala? pela fome? Ou o tempo bovino marcado pela eterna esperança? O tempo da esperança canonizada.

Tempo tempo tempo 

O que faço eu nesse tempo?

Esse tempo de me embriagar de uma alegria coloridadamente tóxica 

do anúncio onde alguma moça de beleza estrangeira de algum lugar estrangeiro de sorriso estrangeiro de uma felicidade tão estrangeira para mim quanto elas mesmas

(a moça e a felicidade)

tempo estranho de bala e sexo amasiados na mesma cama

3

Tempo tempo tempo

O que faço eu com esse tempo agora?Esse tempo despido do tempo diante de ti, companheira. nesse momento em que não cabe um só movimento, que  mal comporta o beijo de tão intenso?

Só eu e seu corpo, só  seu corpo e minha desalma

O tempo que zomba do relógio

Que manda o patrão e sua mais-valia pro caralho, o tempo descapitalizado nesse segundo-momento o que podemos enfim nós, senão gozar de todo tempo que inexiste agora?!


III


no meu tempo era diferente

sentencia a boca envelhecida na fila do banco no meu tempo não era assim nem assado,contraprofetisa  a boca enlutada debaixo de um véu que mal esconde o hálito fúnebre

pois meu tempo não permite saudosismos,

Olho pra trás e prossigo, curupira faminto de caça e fumo, prossigo 

IV

as horas são cuidadosamente construídas numa engenhoca maldita.Feitas e refeitas e cada vez vão ficando sutilmente mais longas e pesadas, mais apertadas. Sufocantes.

Que fábricante maldito inventou as horas?


Acabaram-se as horas do beijo durante o sexo

eles hoje  vêm prontos e sem esforço pra sua satisfação

O tempo do encontro marcado ao nascer do sol,

ou depois da chuva numa tarde maranhense,


o tempo de imponderabilidades sorridentes

como reencontrar um amigo na multidão inquieta de minha  cidade ou de se ver amigo dos passarinhos numa praça escondida das aulas de matemática


O tempo de mergulhar no vazio momentâneo duma  sombra de amendoeira fresca da infância à beira da Guanabara

e ter como companhia um breve e profundo sorriso em silêncio,

aquele  tempo de não dizer nada, de não fazer nada, de quase não respirar:  tempo abundante do nadar,

hoje condenado à vergonha


Mas o tempo secou. Secou e nos sufoca. Secou mas incomoda como a saudade inútil.

Secou e sopesa como o espírito de um pássaro extinto há muitas eras


V

Mal vejo a hora de te rever

eu que de tão sozinho e saudoso

brinco de inventar palavras que sirvam de alinhavar esse vão do peito-canyon

palavras gagas de sentido e música:

(como são de praxe as palavras sozinhas) 

eu, sozinhidão, eu sadadetude.

Eu que tento em vão algum sentido de poesia capaz de me dessozinhizar 

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O aprendedor

Drummond 

Drummond me ensinou minas
Se é que minas se aprende
(Minas tão funda 
quanto etérea )

Mais que a caligrafia montanhosa
a palavra-vale, quase concha,

Mais que a riqueza minéria,
A metáfora mineira feita de silêncio e dínamo

Drummond foi meu primeiro mestre:
Depois dele, minas deixou de ser mistério:
virou enigma

Leminski

Na sua poesia, meu bardo polaco pardo,
Nada é fardo nem fado
Sua palavra transita em susto
Na sua poesia, Leminski, a palavra insinuosa vibra entre sarcasmo e fúria:

dúbia víbora.

Manoéis

Me fervem passarinhos na cabeça oca de nuvens, cometas e galaxias

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Ouvir vozes

segunda-feira, 20 de maio de 2024

palavras em tempos de bala

Poemas em tempos de bala

amor em tempos do ódio 

Preciso confessar um segredo terrível. 
Sim. Preciso confessar: 
Te amo.  Impiedosamente amo.

Mas amo você cada vez mais em silêncio
Silêncio quase pecado de padres,
de púlpitos,

Amo como os homens se amam
nos dias de hoje:
em vergonha, nojo e fúria 

Por isso preciso desconfessar com clareza esse amor. Então, te amo.
Imperdoável mente amo.

Pois se amo
O que fazer desse arrojo amedrontado?
O que fazer desse desejoso desprezo?
O que fazer desse amor que tanto odeia?

Esse amor feito só de mim e de ti 
a minha imagem e semelhança.



domingo, 17 de março de 2024

Impressões de viagem

1. 
Desde menino sonhava viajar  pelo espaço entrestrelas que, contra-matemático
Sempre achei o menor espaço entre os sóis e os sonhos

2.
Na velocidade tudo faz psiu 
                                                   e  
                                                             tchau!
Adeus?



sábado, 16 de março de 2024

OFFício (Apologias & apoplexias)

Ex-OFFício

Ao Sr. Ford

Caro, caríssimo senhor
Venho por meio deste comunicar V. Sria
Conceito fora de série e de linha
Produzido enquanto deitado na sombra mole de amendoeira nas areias da Gamboa, em companhia de um bom samba e doses de uma alegre caipirinha:

É de preguiça em preguiça que se enche
melhor linguiça.


Universos & diversos

lll

A mariposa cinza cinzenta na certa zombaria dos arco-íris sucumbidos na noite descrente de borboletas :
mariposas cinza cinzentas, velhas rabugentas
Não têm senso de poesia

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

2. (in "Suicídios")

 

filósofo sem nenhum futuro,

sempre pensei na morte de maneira pouco profunda, sem filosofias:

 em síntese

como um mero dia de domingo

sem teorias

nem culpa;

sem as retórica etílica dos sábados

nem o mal-estar niilista das segundas