Este pretende ser um espaço de divulgação de coisas que venho produzindo ao longo dos anos. Sem pressa. Afinal, "de preguiça em preguiça, também se enche boa linguiça".


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Em tempo

I

Tempo tempo tempo
O que fazer com essa relatividade?
O tempo leve que pode pesar mais que uma praga sobre os ombros de Sísifo,
Que um grito num calabouço,
Que uma saudade bruta

O que fazer com o tempo?
pergunto quase passivo às rugas que chegam sem convite, diante de imagens pouco nítidas de pequenos quadros enfileirados desarmonicamente pelas paredes que vão se manchando da umidade mal curada de antigos afetos ainda recentes

Tempo tempo tempo
Que faço eu desse tempo incerto que resta?
Eu mal nascido nos trópicos,
que tempo me cabe?
O da morte prematura sem solução de cada instante?
O fim marcado pela bala, pela fome, pela desesperança?
O tempo de me esconder do estampido?
De ouvir bovinamente o ranger dos intestinos?
Tempo de me embriagar da esperança colorida e tóxica do anúncio onde alguma moça de beleza estrangeira de algum lugar estrangeiro sorri uma felicidade tão estrangeira para mim quanto ela mesma?

II

Tempo tempo tempo
O que faço eu com esse tempo agora
Esse tempo despido do tempo?
Diante de ti, companheira, nesse momento em que não cabe um só movimento, que não mal comporta um beijo de tão intenso
Só eu e seu corpo
Só seu corpo e minha desalma

O tempo que zomba do relógio
Que manda o patrão e sua mais valia à merda o tempo descapitalizado 

o que podemos nós, senão amar? 
E depois de reamar, inadivertidamente multiamar

III

no meu tempo era diferente
sentencia a boca envelhecida
no meu tempo não era assim nem assado,
contraprofetisa a boca enlutada debaixo de um véu que mal esconde o hálito fúnebre

pois meu tempo não permite saudosismos,
o peso de muitos corpos pesa sobre nós:
[...]



IV

as horas são cuidadosamente construídas
numa engenhoca maldita.
Feitas e refeitas e cada vez vão ficando sutilmente mais longas e pesadas

Acabaram-se as horas do beijo durante o sexo
eles hoje vêm prontos e sem esforço pra sua satisfação
O tempo do encontro marcado ao nascer do sol,
ou depois da chuva numa tarde maranhense,

o tempo de imponderabilidades sorridentes
como reencontrar um amigo na multidão inquieta de minha cidade ou de se ver amigo dos passarinhos numa praça escondida das aulas de matemática

O tempo de mergulhar no vazio momentâneo duma sombra de amendoeira fresca da infância à beira da Guanabara
e ter como companhia um breve e profundo sorriso em silêncio,
aquele tempo de não dizer nada, de não fazer nada, de quase não respirar: tempo abundante do nadar,
hoje condenado à vergonha

Mas o tempo secou. Secou e nos sufoca. Secou mas incomoda como a saudade inútil.
Secou e sopesa como o espírito de um pássaro extinto há muitas eras

V

Mal vejo a hora de te rever
eu que de tão sozinho e saudoso
brinco de inventar palavras que sirvam de alinhavar esse vão do peito canyon

palavras gagas de sentido e música
(como são de praxe as palavras sozinhas) 
eu, de tão sozinho, 
sozinhidão, eu sadadetude, 

eu que tento em vão algum sentido e poesia
que seja capaz de me dessozinhar 

VI






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