Este pretende ser um espaço de divulgação de coisas que venho produzindo ao longo dos anos. Sem pressa. Afinal, "de preguiça em preguiça, também se enche boa linguiça".


sábado, 8 de agosto de 2026

Natal-23

NATAL 23

Não há chaminés no lixão de Gramacho
Não haverá neve na favela Beira Mar
Trenós não transitarão pelas vielas 
do Martins 

Já não há mais janelas onde deixar os poucos sapatinhos órfãos em Gaza

E amanhã será como ontem: com shoppings expondo suas luzinhas coloridas,
hipinoticamente vorazes
de fachada

E depois de amanhã estará morta em postas a noite mal acabada de depois de hoje.

Marco Ribeiro 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

2. Leio numa notícia de tempos atrás o aumento de corações precocemente falidos.
Demos tantas incumbências ao coração que cada vez menos deles resistem

O coração, puro músculo precisa não pensar, princípio nobre da filosofia
pra quem o coração é apenas músculo desnecessário porque não formula.

Entretanto inventamos seja o primeiro que perdoa, dizem os padres, e o que por fim, desfere doze facadas na companheira 
 apaixonadamente violentas 
diante dos filhos pequenos a quem igualmente ama

Só ao coração cabe namorar, noivar (?), casar,  procriar em nome da única espécie 
Que é capaz de desferir meia dúzia de tiros no peito de um mecânico apenas porque pisou no pé de alguém num forró  animado na madrugada de Belford Roxo

 


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Desrio



(Não cabe nesta série)

Hoje a solidão não passa,
As horas não correm
Minutos de pedra pome
se mumificaram no relógio sem futuro 

A solidão emula o silêncio de um rio sem alma, rio de papel e tinta .

Rio sem a memória de seus peixes
Sem o lodo ladino sobre as pedras. Das armadilhas entre as pedras.

Hoje me sinto afogando estabilidade movediça de um rio extinto.

Ou de um rio sequestrado. Onde tudo é vala, poço, queda, nada é curso, profundidade, corredeira

Hoje o dia não passa, rio em profundo silêncio paradoxal.

Essa solidão é um rio desaguado.


1. Algumas palavras gosto é da palavra coisa fútil daquelas palavras excitantemente mentirosas que as moças dizem pra gente se enganar pelo preço justo e o tempo contado na vila mimosa Aquelas moças que eu muito jovem achava tão belas por trás de seus batons escandalosos, de seus gestos perfumados Elas que dominavam de palavra vestidas ora de nuvem ora de tempestades Adoro esse tipinho à toa de palavra cheirando a corpo, perfume barato e amor sem etimologia

enciclopédia
outubro 11, 2025
não sei por que me veio uma lembrança dessas que assombram raro, desses fantasmas bissextos saltados de uma memória tão longínqua que (....) Vasculhando ...
Leia mais
Suicídios
outubro 29, 2024
Por vezes me sinto tão só e por vezes a solidão é tamanha que nem mesmo A sombra mesma dessa solidão me acompanha 
Leia mais
Tecnologia do Blogger
Imagens de tema por Michael Elkan
Minha foto

Marco Antônio Sãogonçalo
    Um amador das letras.

Visitar perfil
Arquivo
Denunciar abuso

Das coisas (dês) importantes

1. Algumas palavras 

gosto é da palavra coisa fútil 

daquelas palavras excitantemente mentirosas que as moças dizem pra gente se enganar pelo preço justo e o tempo contado na vila mimosa

Aquelas moças que eu muito jovem achava tão belas por trás de seus batons escandalosos, de seus gestos perfumados

Elas que dominavam de palavra vestidas ora de nuvem ora de tempestades 

Adoro esse tipinho à toa de palavra 

cheirando a corpo, perfume barato e amor sem etimologia

2. Leio numa notícia de tempos atrás o aumento de corações precocemente falidos.
Demos tantas incumbências ao coração que cada vez menos deles resistem

O coração, puro músculo precisa não pensar, princípio nobre da filosofia
pra quem o coração é apenas músculo desnecessário porque não formula.

Entretanto inventamos seja o primeiro que perdoa, dizem os padres, e o que por fim, desfere doze facadas na companheira 
 apaixonadamente violentas 
diante dos filhos pequenos a quem igualmente ama

Só ao coração cabe namorar, noivar (?), casar. Procriar em nome da única espécie 
Que é capaz de se matar apenas porque alguém pisou no pé de alguém pisou que acabou com um baile em Belford Roxo quem alvejou com dois projéteis um músico.
Odiar também é cruel....

falar sobre o silêncio ( in Universos&Diversos)

 falar sobre o silêncio 

A. Me diz: sobre o silêncio o que se fala
quando  é ele mesmo o primeiro que cala?

B. O olhar das coisas sobre nós. Como será que elas nos olham? Como eu olho essa mesa posta de lembranças duma infância supostamente quase feliz?
Ou as coisas nos vêem como esses seres móveis de carne, nervos, inseguranças?

Quem sabe nos espiam com a indiferença de criaturas fúteis, incumbidas de provar a todo tempo sua humanidade?

Ou simplesmente mal nos enxerguem dentro da nossa devida insignificância?

quarta-feira, 27 de maio de 2026

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Em tempo

I

Tempo tempo tempo
O que fazer com essa relatividade?
O tempo leve que pode pesar mais que uma praga sobre os ombros de Sísifo,
Que um grito num calabouço,
Que uma saudade bruta

O que fazer com o tempo?
pergunto quase passivo às rugas que chegam sem convite, diante de imagens pouco nítidas de pequenos quadros enfileirados desarmonicamente pelas paredes que vão se manchando da umidade mal curada de antigos afetos ainda recentes

Tempo tempo tempo
Que faço eu desse tempo incerto que resta?
Eu mal nascido nos trópicos,
que tempo me cabe?
O da morte prematura sem solução de cada instante?
O fim marcado pela bala, pela fome, pela desesperança?
O tempo de me esconder do estampido?
De ouvir bovinamente o ranger dos intestinos?
Tempo de me embriagar da esperança colorida e tóxica do anúncio onde alguma moça de beleza estrangeira de algum lugar estrangeiro sorri uma felicidade tão estrangeira para mim quanto ela mesma?

II

Tempo tempo tempo
O que faço eu com esse tempo agora
Esse tempo despido do tempo?
Diante de ti, companheira, nesse momento em que não cabe um só movimento, que não mal comporta um beijo de tão intenso
Só eu e seu corpo
Só seu corpo e minha desalma

O tempo que zomba do relógio
Que manda o patrão e sua mais valia à merda o tempo descapitalizado 

o que podemos nós, senão amar? 
E depois de reamar, inadivertidamente multiamar

III

no meu tempo era diferente
sentencia a boca envelhecida
no meu tempo não era assim nem assado,
contraprofetisa a boca enlutada debaixo de um véu que mal esconde o hálito fúnebre

pois meu tempo não permite saudosismos,
o peso de muitos corpos pesa sobre nós:
[...]



IV

as horas são cuidadosamente construídas
numa engenhoca maldita.
Feitas e refeitas e cada vez vão ficando sutilmente mais longas e pesadas

Acabaram-se as horas do beijo durante o sexo
eles hoje vêm prontos e sem esforço pra sua satisfação
O tempo do encontro marcado ao nascer do sol,
ou depois da chuva numa tarde maranhense,

o tempo de imponderabilidades sorridentes
como reencontrar um amigo na multidão inquieta de minha cidade ou de se ver amigo dos passarinhos numa praça escondida das aulas de matemática

O tempo de mergulhar no vazio momentâneo duma sombra de amendoeira fresca da infância à beira da Guanabara
e ter como companhia um breve e profundo sorriso em silêncio,
aquele tempo de não dizer nada, de não fazer nada, de quase não respirar: tempo abundante do nadar,
hoje condenado à vergonha

Mas o tempo secou. Secou e nos sufoca. Secou mas incomoda como a saudade inútil.
Secou e sopesa como o espírito de um pássaro extinto há muitas eras

V

Mal vejo a hora de te rever
eu que de tão sozinho e saudoso
brinco de inventar palavras que sirvam de alinhavar esse vão do peito canyon

palavras gagas de sentido e música
(como são de praxe as palavras sozinhas) 
eu, de tão sozinho, 
sozinhidão, eu sadadetude, 

eu que tento em vão algum sentido e poesia
que seja capaz de me dessozinhar 

VI